Tomie Ohtake – Biografia e obras

Artista Tomie Ohtake sentada em primeiro plano. Ao fundo, suas obras compõem um cenário em tons de vermelho e azul.

Tomie Ohtake foi uma artista plástica de extrema importância, afinal é dona de uma estética inconfundível que encanta e intriga.

De origem japonesa, Tomie adotou o Brasil como a sua pátria, mas sem perder a essência de sua cultura. Dessa maneira, as suas centenas de pinturas, esculturas e gravuras possuem uma estética inconfundível que une o ocidente ao oriente.

A vida de Tomie Ohtake do Japão ao Brasil

A vida de Tomie Ohtake no Brasil teve início em 1936, quando a artista, aos 23 anos de idade, veio ao País para visitar o seu irmão. A intenção era ficar por um tempo em São Paulo e depois retornar para Quioto, sua cidade natal. 

Porém aconteceu o início da Segunda Guerra Mundial, tornando insegura a volta de Tomie para o Japão. Logo, o que seria uma temporada de um ou dois anos, transformou-se em uma vida inteira com belos caminhos no Brasil, a sua segunda pátria.

Tomie Ohtake jovem ao lado de sua mãe, ambas em trajes tipicamente orientais.
Tomie Ohtake ao lado de sua mãe. Fonte: Bel Biasi Arquitetura

Nos anos seguintes, Tomie casou-se com Ushio Ohtake, engenheiro agrônomo e também imigrante japonês. Foi de seu esposo que a artista adquiriu o sobrenome com o qual se tornou conhecida.

Seus dois filhos também nasceram e cresceram no Brasil. Além disso, ambos cursaram arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP). 

Ruy Ohtake, o filho mais velho, tornou-se um renomado e reconhecido profissional, com projetos icônicos que marcaram a história do País. Já Ricardo Ohtake, o segundo filho, seguiu para os caminhos da comunicação visual.

No Brasil, o bairro da Mooca foi o primeiro refúgio de Tomie Ohtake, onde viveu durante muitos anos, até que, em 1970, se mudou para uma casa projetada por seu filho Ruy.

Em virtude da sua identificação com o País, em 1968, Tomie se naturalizou brasileira e adotou o Brasil como o seu país até o fim da vida.

Tomie Ohtake: a dama das artes plásticas brasileira 

O interesse pelas artes sempre esteve presente na vida de Tomie Ohtake, porém adormecido. As suas habilidades se desenvolveram de fato mais a fundo após o incentivo que a artista recebeu de Keiya Sugano no ano de 1952, no auge dos 40 anos de idade de Tomie.

A princípio, ela criava obras que representavam paisagens e cenas cotidianas, mas o seu estilo artístico passou por uma transformação até atingir uma estética bastante abstrata.

Paisagem mostrando árvores e grama em primeiro plano. Ao fundo há uma espécie de lago contornado por construções.
Inicialmente Tomie pintou cenas cotidianas, a partir da observação – 1952, óleo sobre tela. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

Tomie iniciou a sua participação em exposições e salões de arte durante o período em que suas pinturas ainda apresentavam características que lembram a realidade.

Tomie Ohtake posa ao lado de suas telas e criações expostas no II Salão Paulista de Arte Moderna.
Tomie Ohtake iniciou a sua carreira participando de exposições coletivas como o II Salão Paulista de Arte Moderna, em 1952. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

Aos poucos, as pinturas de casas e cidades, com certo realismo, foram substituídas por impactantes imagens orgânicas e uma paleta de cores singular. No intermédio dessa mudança de estética, as suas pinturas continham bastante formas geométricas com cores em diversos tons.

Pintura com formas coloridas que se completam como um tangram.
Antes de chegar ao abstracionismo, as pinturas de Tomie apresentavam formas geometrizadas combinando certa variedade de cores – 1954, óleo sobre tela. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

O tipo de estética adotada pela artista segue a vertente do abstracionismo informal, também conhecido por abstracionismo sensível. Isso porque é um estilo de criar que está focado no desenho desprendido e livre.

Tomie Ohtake pintando um grande mural em tom de roxo vivo.
Tomie Ohtake possui uma extensa produção artística que vai de pinturas a esculturas. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

Mesmo possuindo métodos e certas regras, o abstracionismo de Tomie sempre esteve bastante ligado à emoção. Como a própria artista disse: “minha obra não tem que ser bonita, minha obra tem que ser expressiva”. 

Além da pintura, a artista explorou as áreas de serigrafia, litogravura, gravura em metal, painéis e escultura. Em todas elas as cores vivas são um destaque, ressaltando e valorizando o ambiente no qual estão inseridas.

Sala totalmente branca com 7 telas de Tomie Ohtake distribuídas nas paredes.
Exposição Pintura e Pureza, realizada em 2013. Fonte: Nara Roesler

A partir dos 50 anos de idade, a carreira de Tomie Ohtake atingiu pleno desenvolvimento, de forma que a artista começou a participar de mostras individuais e desenvolver trabalhos que levaram visibilidade.

A influência da arte oriental também está presente, especialmente na composição dos elementos, resultando em obras que são despidas de qualquer excesso e que misturam a tradição ao contemporâneo.

Tomie Ohtake na pintura abstrata

A organicidade é uma das características principais das pinturas de Tomie Ohtake, bem como a paleta de cores cuidadosamente pensada para contrastar entre si, ao mesmo tempo em que se complementam.

As cores escolhidas por Tomie Ohtake se reduzem a duas ou três, de maneira que o avermelhado e o preto estão presentes em boa parte de suas obras. 

Em alguns momentos, a pintura de Tomie revela transparência, com camadas sobrepostas e bastante movimento.

Gravura que se parece com duas paletas de pintura sobrepostas. A que está ao fundo apresenta coloração vermelha e a que está a frente, é preta.
Recorte da Forma, gravura em metal sobre papel, 1999. Fonte: Escritório de arte

Em outros períodos, Tomie Ohtake apresenta uma obra com camadas densas de pintura e repleta de texturas que saltam aos olhos do observador. Assim, a luz que incide sobre a tinta brilhante proporciona ainda mais profundidade.  

Pintura com diversas camadas sobrepostas formando um relevo circular ao centro. O Vermelho vivo está sempre presente nas obras de Tomie Ohtake.
A pintura de Tomie Ohtake, por vezes, possui camadas densas. Fonte: Nara Roesler

Entre 1959 e 1962, a artista realizou uma série de pinturas com os olhos vendados na intenção de exteriorizar o seu interior plenamente. Essa é uma forma de abstracionismo que mergulha ainda mais fundo em maneiras alternativas de representação da arte, deixando se levar apenas pelos sentidos e não pela visão.

Essas obras renderam a exposição Pinturas Cegas, em 2011, criando uma reflexão de que a emoção pode ser o ponto de partida para a criação de arte e não apenas as características estéticas e plásticas dos elementos.

Gravura com manchas abstratas.
Gravura em metal P.A 54x80cm, 2008. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

Tomie Ohtake, ao longo de sua carreira, se mostrou uma artista completa, capaz de criar nos mais diversos tipos de espaços. Nos 20 anos iniciais de sua carreira, a artista permaneceu dedicada à pintura, consolidando a sua identidade e posteriormente entrou no universo da escultura.

Analisando toda a sua criação, as linhas parecem se transportar do papel, das telas e das gravuras para o espaço tridimensional das esculturas, de maneira impressionante, como se um fosse a extensão do outro.

Os painéis públicos de Tomie Ohtake 

Saindo das telas e partindo para a escala das cidades, a artista também desenvolveu diversos painéis, tanto em ambientes internos como em conhecidas paisagens, especialmente da cidade de São Paulo.

Painel no Memorial da América Latina

No Auditório Simón Bolívar, um projeto com autoria de Oscar Niemeyer, a artista criou um painel em tapeçaria com mais de 70 metros de extensão. As cores vivas contrastam com os tons escuros do mobiliário e dos revestimentos, destacando o movimento e a organicidade dos elementos.

O painel em tapeçaria ocupa boa parte da parede lateral do auditório, desde o palco até a plateia.
O painel em tapeçaria do Auditório Simón Bolívar foi desenvolvido por Tomie Ohtake. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

A peça foi finalizada no ano de 1990, no entanto, em 2013, um incêndio atingiu o Auditório, danificando a obra. Quando soube do acontecido, a artista iniciou um processo de reconstrução, com a diferença de que a nova tapeçaria foi realizada em uma peça única e sem emendas.

Painéis da estação de metrô Consolação

A obra Quatro Estações, criada por Tomie para o metrô Consolação, é composta por quatro painéis e, como o próprio nome já diz, representa as cores e as sensações que as épocas do ano carregam. Assim, o verde é a primavera, o amarelo é o verão, o marrom é o outono e o azul, inverno.

Cada um dos painéis possui mais de 15 metros de extensão e são compostos por pastilhas de vidro que dão um efeito interessante, variando levemente de tons entre si.

Os painéis da estação de metrô Consolação são extensos e estão localizados em paredes de fácil visualização para quem espera o transporte e para quem está dentro dele.
Para a estação de metrô Consolação, Tomie Ohtake desenvolveu painéis com as cores das estações do ano. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

O local recebe milhares de passageiros diariamente, o que para Tomie foi um ótimo estímulo, afinal inserir suas obras no cotidiano de tantas pessoas é uma maneira de aproximá-las da arte, tornando suas vidas mais leves e bonitas.

Painel Ladeira da Memória no Vale do Anhangabaú

Localizado na parede sem aberturas do Edifício Santa Mônica, o painel possui mais de 55 metros de altura e foi executado em 1984. Para pensar a obra, Tomie retratou o que queria precisamente em uma tela de 1 metro de altura, da mesma forma que costumava fazer para outros painéis de grande dimensão.

A obra é composta por oito cores de tinta epoxy, que saltam da paisagem cinza predominante, configurando-se como um ponto de cor energizante que convida a viver.

Painel Ladeira da Memória, na lateral do edifício.
O painel Ladeira da Memória possui cores energizantes que saltam da fachada do edifício. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

Esculturas são as linhas fora do papel

Toda a obra de Tomie Ohtake é bastante homogênea e as esculturas deixam isso evidente, pois seguem a linguagem da arte criada nas telas, tanto pelas cores como pelas formas. 

As esculturas da artista plástica normalmente são grandes volumes orgânicos constituídos por materiais como aço e metal. Assim, o processo que se inicia com um pensamento em linhas resulta em uma obra com força descomunal.

As Ondas, uma escultura que aponta para o mar

Uma das mais emblemáticas é a escultura As Ondas, que está localizada em Santos, apontando para o mar. O impacto da cor vermelha, em contraste com o fundo azul, faz da obra um ponto de destaque bastante apreciado por turistas e visitantes do local.

A escultura possui 15 metros de altura e lembra uma fita sendo agitada pelo vento, porém, segundo Tomie, ela não tem um significado exato, pois a ideia é que cada um busque a sua própria interpretação.

A fita em vermelho se destaca do céu e do mar azuis.
As Ondas é uma escultura em aço que se tornou um cartão postal. Fonte: Pinterest

Escultura no Auditório do Ibirapuera

Além de esculturas externas, Tomie criou obras que complementam espaços importantes em edifícios da cidade de São Paulo. 

No hall de acesso do Auditório do Ibirapuera, por exemplo, uma bela escultura sinuosa compõe o espaço com curvas que se estendem das paredes até o forro. O detalhe das pontas levemente soltas dá ainda mais dinamicidade a essa bela obra.

A obra no hall do Auditório do Ibirapuera é uma escultura que ocupa a lateral da parede e parte do teto, se destacando do ambiente.
A escultura do Auditório do Ibirapuera se destaca no hall de acesso, tanto por sua dimensão como por sua cor. Fonte: Flickr

Monumento à imigração japonesa

O monumento foi desenvolvido em comemoração aos 80 anos do início da imigração japonesa para o Brasil e está localizado em frente ao Centro Cultural São Paulo. A escultura em concreto armado totaliza 40 metros de comprimento e possui ondas coloridas.

O monumento está ao lado da via, ficando visível para quem passa pelo local. A parte externa de cada um dos elementos é cinza, como a construção, enquanto a interna é colorida.
Monumento à imigração japonesa. Fonte: Pinterest

Tomie Ohtake, sendo uma das grandes representantes do movimento migratório, desenhou a escultura pensando nas linhas que se dobram como as diferentes gerações de japoneses que escolheram viver no Brasil.

Monumento ao trabalhador

A escultura que homenageia a classe trabalhadora está localizada no Paço Municipal de Santo André, ao lado do espelho d’água, desde 2013.

Os seus 12 metros de altura se desenrolam em um gracioso formato de fita. Essas curvaturas foram obtidas por meio do aço, um material bastante maleável e resistente.

Monumento ao lado do espelho d'água da prefeitura de Santo André. A cor vermelha contrasta com a vegetação do local.
O Monumento ao trabalhador é um belo ponto de cor no centro de Santo André. Fotografia tirada pela autora Thainá Neves.

Além de estar em um espaço bastante representativo para a cidade de Santo André, a cor vermelha vibrante completa a paisagem de maneira muito interessante.

Tomie Ohtake é um marco entre o oriente e o ocidente

A quantidade de exposições nas quais Tomie Ohtake apresentou o seu trabalho por si só retrata o sucesso e a relevância de sua arte, afinal foram mais de 120 exposições individuais e quase 400 exposições coletivas, as quais aconteceram tanto no Brasil como em diversos países do mundo, rendendo 28 premiações, incluindo o Prêmio Itamaraty.

Linha do tempo retratando a vida e as obras de Tomie Ohtake.
Linha do tempo retratando a vida e as obras de Tomie Ohtake. Fonte: Live

Além de suas pinturas, gravuras, painéis e esculturas, o Instituto Tomie Ohtake é um dos maiores legados deixados pela artista. Isso porque é um espaço totalmente dedicado às artes plásticas, à arquitetura e ao design, valorizando a produção nacional e incentivando novos artistas.

Fachada do Instituto Tomie Ohtake com ondulações e revestimento em cores variadas.
O Instituto possui uma estética que lembra a própria obra de Tomie Ohtake. Fonte: Instituto Tomie Ohtake

A construção, projetada por seu filho e grande arquiteto Ruy Ohtake, foi inaugurada em 2001 e apresenta elementos bastante únicos. As curvas da fachada e as cores, por exemplo, fazem uma relação direta à obra de Tomie.

Sua trajetória foi extensa, de forma que a artista viveu até os 103 anos de idade em plena lucidez e criando arte até os últimos momentos de sua vida. 

Se fosse para resumir toda a sua bela história de vida, além de marcar as paisagens do Brasil, o grande legado que Tomie deixou foi o encontro entre o oriente e o ocidente.

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