Estilos Arquitetônicos: Ecletismo

Ecletismo

Todos temos aquele amigo que ama ouvir estilos de música opostos, o eclético da turma, mas você sabia que este termo vai além da música e que já foi um estilo arquitetônico, conhecido como Ecletismo?

Pois então, embora o Ecletismo tenha sido um estilo arquitetônico em voga entre o século XIX e início do século XX, segue-se utilizando o termo eclético, que significa algo composto por diferentes estilos, doutrinas ou perspectivas, por exemplo. 

O Ecletismo

Ecletismo é o termo usado para referir-se à liberdade de escolha, sem preconceito e apego a um determinado estilo, sendo muito utilizado nas artes e na política.

Dentro da temática da arquitetura, o termo ecletismo ou eclético faz referência à mistura de estilos arquitetônicos do passado. Nessas obras, é possível perceber uma combinação de elementos que são característicos de estilos diferentes, combinados, conformando um novo estilo arquitetônico. 

Contexto histórico do Ecletismo

O Ecletismo foi um estilo arquitetônico que surgiu na Europa na segunda metade do século XIX e permaneceu em voga até a entrada do século XX. Já na América, incluindo o Brasil, o estilo marcou a arquitetura das primeiras décadas do século XX. 

Este foi o estilo que antecedeu o Modernismo, sendo o último estilo da história que se voltava ao passado e tinha como essência arquitetônica linguagens anteriores.

O Ecletismo surgiu como resultado de uma série de fatores sociais, políticos e culturais que o mundo estava atravessando na época, e, tal como os demais estilos artísticos, é um reflexo da visão de uma sociedade em um período específico, responsável por marcar uma época.

Teatro Municipal de São Paulo. Fonte: Wikipédia

Após a revolução industrial, as principais capitais da Europa, como Paris e Londres, viveram um período de êxodo rural, uma importante expansão para as cidades, em busca de melhores condições de trabalho e de vida, e, portanto, de necessidade de planejamento urbano. 

Nesse período é que surge a arquitetura industrial, os edifícios projetados para abrigar produções, como fábricas, oficinas, laboratórios e estações ferroviárias, passam a ser os mais importantes da cidade, afinal, era a partir deles que a cidade enriqueceria, e de fato enriqueceu. 

Essa época foi marcada por uma revolução socioeconômica, na qual o triunfo da burguesia levou a uma melhorada progressiva da posição social do proletariado, também como a ascensão da pequena e da média burguesia.

O acontecimento mais marcante, e de maior influência para o Ecletismo, foi a Escola de Belas Artes de Paris, cidade mais importante no campo das artes naquela época. A educação acadêmica centrou-se no domínio de estilos antigos, originando o que foi chamado de estilo “Beaux-arts”, que mesclava o Clássico, o Renascimento e o Barroco, que mais tarde se transformaria no estilo Eclético. 

Embora o Ecletismo tenha constituído uma prática arquitetônica de grande importância histórica e cultural, era, para críticos intelectuais, a representação do mundo burguês e vitoriano, sendo muito rejeitado por arquitetos e intelectuais da época. 

Arquitetura eclética

A arquitetura eclética é um estilo que combina elementos arquitetônicos e decorativos de correntes passadas, em busca de uma nova harmonia através do antigo.

O arquiteto e teórico francês César Denis Daly (1811-1893) define o Ecletismo como “o livre uso do passado”. 

Ao contrário do Historicismo, corrente que surgiu na Europa durante o século XVIII e atingiu o auge no século XIX, dedicando-se a imitar estilos da antiguidade, como o clássico greco-romano, o Ecletismo incorpora características de diferentes culturas e arquiteturas, combinando-as em uma só obra.

Petit Palais, Paris.
Petit Palais, Paris. Fonte: Pinterest

Portanto, o Ecletismo não se trata de uma simples cópia do passado, e sim da habilidade de combinar características principais de diferentes estilos em edifícios para abrigar programas da demanda da época.

Através dessa combinação, o Ecletismo buscou uma nova linguagem para compor as transformações pelas quais a sociedade estava passando. 

Tais combinações que poderiam vir de vários estilos arquitetônicos passados: Clássico, Renascentista, Barroco, Gótico, entre outros. 

Características da arquitetura eclética

Apesar de a arquitetura eclética combinar elementos de estilos passados diferentes, existem características principais que norteiam o estilo e compõem uma constante presente em todas as obras ecléticas.

A época em que está inserido o Ecletismo foi marcada pelo período industrial e pela introdução de novos materiais nas construções, como ferro, aço e concreto. O Ecletismo, embora resgate elementos antigos, usufrui destes novos materiais e sistemas construtivos nas obras. 

A arquitetura eclética está marcada por uma busca pela grandiosidade e pela riqueza, que é materializada através da exuberância decorativa, muitas vezes até excessiva, e o uso da cor dourada em elementos ornamentais.

Entre as principais características da arquitetura eclética também está a simetria, e o rigor hierárquico dos ambientes internos. 

Marcos do Ecletismo pelo mundo

O estilo Eclético foi utilizado para compor edifícios relevantes até os dias atuais em cidades da Europa, como Paris, Milão, Lisboa, Madrid, também como nas Américas, incluindo o Brasil.

Embora muito criticado na época por intelectuais e arquitetos, o estilo Eclético é a marca de um período de desenvolvimento socioeconômico, sendo tais obras símbolos de riqueza e luxo da sociedade. 

Ópera Garnier, Paris

Ópera de Paris, marco do ecletismo no mundo.
Ópera de Paris. Fonte: Pinterest

Uma das obras mais emblemáticas do Ecletismo no mundo é, sem dúvida, o Teatro Ópera Garnier, em Paris, projetado pelo então jovem arquiteto Charles Garnier, responsável por diversos edifícios importantes na capital francesa. 

A Ópera foi construída durante o contexto da grande reformulação urbana de Paris, liderada por Georges-Eugenes Haussmann, em 1859, Segundo Império de Napoleão III. 

O edifício tem como objetivo principal ser símbolo da alta burguesia, da riqueza, lugar de prestígio. Assim, a obra é materializada de maneira monumental, com decoração exuberante, tanto no exterior como nos espaços interiores.

O peculiar terreno de 12 mil m², de esquina dupla, é composto por uma fachada principal e duas laterais, um desafio que o arquiteto Garnier tirou bastante proveito, criando um edifício luxuosamente ornamentado, com colunas decoradas, estátuas e figuras de anjos em dourado. 

Entre os principais espaços interiores está o auditório, onde predomina o veludo de cor vermelha e o dourado; já o vestíbulo foi inspirado na Galeria dos Espelhos de Versalhes, com elementos decorativos característicos do estilo Barroco

Galleria Vittorio Emanuele II

Galleria Vittorio Emanuele II, marco do ecletismo no mundo.
Galleria Vittorio Emanuele II. Fonte: Márcia Travessoni

Localizada do lado da Duomo, catedral de Milão, está a luxuosa Galleria Vittorio Emanuele II, símbolo da arquitetura eclética na Itália. A galeria é composta por uma rua coberta que vincula a Piazza Duomo à Piazza della Scala, ponto de referência para a moda e o luxo, onde lojas de alta costura italiana e europeias esbanjam vitrines que unem sofisticação e tendência até os dias atuais.

A Galeria, construída em 1865 e inaugurada em 1887, foi projetada por Giuseppe Mengoni, então jovem engenheiro italiano, e é marcada por uma decoração exuberante e pelo uso de novos materiais.

Composta com uma planta em cruz, a Galeria tem duas ruas perpendiculares, cobertas por uma estrutura arqueada de ferro e vidro, permitindo que os corredores sejam banhados de iluminação natural. No cruzamento das duas ruas, uma imponente cúpula transparente dá espaço ao lugar mais emblemático da galeria, cujo piso é composto por um sofisticado desenho com formas geométricas e brasões coloridos. 

Edifício Metropolis, Madrid

Edifício Metropolis, Madrid.
Edifício Metropolis, Madrid. Fonte: Kalam

Localizado no centro de Madrid, na esquina entre a rua Alcalá e a Avenida Gran Via, o Edifício Metrópolis é mais um exemplo de arquitetura eclética pelo mundo. Com 45 metros de altura, até 1921 foi o edifício mais alto da capital espanhola.

O edifício foi construído entre 1907 e 1911, com estilo Eclético de forte influência francesa. Sua fachada é decorada com um conjunto de esculturas de diversos artistas, com figuras que representam a mineração, o comércio, a agricultura e a indústria, motores do país naquela época.

O edifício é coroado por uma cúpula que se apoia uma estátua, originalmente, esteve coroado por uma estátua de bronze que representa Ganimedes sobre uma fênix. Porém, após o edifício ter novos proprietários, tal estátua foi substituída por uma da figura de Victoria Alada, e a figura original direcionada a um jardim da cidade.  

O Ecletismo no Brasil

O Ecletismo esteve presente na arquitetura brasileira entre o final do século XIX e as primeiras duas décadas do século XX, até 1922, quando aconteceu a Semana de Arte Moderna, dando início a era do Modernismo no Brasil.

É possível observar edifícios ecléticos em diversas cidades do País, que abrigam diversos programas, como teatros, bibliotecas, palácios, escolas e, até mesmo, edifícios comerciais, como é o caso da Confeitaria Rocco, em Porto Alegre. 

Arquitetura eclética no Brasil

O estilo Eclético difunde-se pelas Américas marcando as construções do novo mundo, industrializado e urbanizado. No Brasil, é o estilo responsável pelo visual das cidades durante os planos de urbanização, após a Proclamação da República, que aconteceram nas cidades mais importantes do País na época, como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. 

Bastante inspirados pelo Plano Haussmann, em Paris, tais reformas urbanas no Brasil tinham como objetivo embelezamento, modernização e limpeza das cidades, e foi o estilo Eclético aplicado nas construções dos amplos bulevares abertos na época, como o caso da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, na capital carioca. 

Teatro Municipal do Rio de Janeiro 

Teatro Municipal do Rio de Janeiro, marco do ecletismo no Brasil.
Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Fonte: Exame

O Teatro Municipal do Rio de Janeiro é uma das obras mais relevantes do estilo Eclético no Brasil, construído entre 1905 e 1909, no contexto de reurbanização da cidade e abertura da Avenida Central, onde se localiza o teatro, obra do governo de Pereira Passos.

Ao observar rapidamente o edifício, é possível perceber a forte inspiração que os autores, Francisco de Oliveira Passos e Albert Guilbert, tiveram da Ópera de Paris, como nos elementos decorativos da fachada principal, estátuas douradas, escadarias e interior sofisticado, por exemplo. 

A fachada do teatro combina elementos característicos dos estilos Clássico e Barroco, além das esculturas do artista brasileiro Bernardeli e dos vitrais alemães. 

Museu do Ipiranga, São Paulo

Museu do Ipiranga.
Museu do Ipiranga. Fonte: 32xSP

O Museu do Ipiranga foi construído entre 1884 e 1890, localizado no lugar da Proclamação da República, com o objetivo de simbolizar a independência do Brasil.

Projetado pelo engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, o Museu do Ipiranga é marcado pelas diretrizes do estilo Eclético, em voga na Europa na época, que popularizou-se no Brasil alguns anos mais tarde, marcando a transformação arquitetônica de várias cidades, como a de São Paulo. 

Teatro Amazonas, Manaus

 Teatro Amazonas.
 Teatro Amazonas. Fonte: A Crítica

O Teatro Amazonas é um dos principais cartões-postais da cidade de Manaus, símbolo de cultura e um dos mais importantes teatros do Brasil.

Localizado no Largo de São Sebastião, no centro histórico de Manaus, foi inaugurado em 1896 e tombado como Patrimônio Histórico Nacional em 1966. 

Para além da sua grandiosidade, a cor rosa das fachadas e a colorida cúpula fazem do edifício um verdadeiro monumento para a cidade. A imponente cúpula que coroa o edifício foi composta por 36 mil peças nas cores da bandeira do Brasil, importadas da Europa, assim como grande parte do material utilizado para sua construção.
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