Cobogó: o que é, história e como utilizar

    Cobogó: o que é, história e como utilizar
    Victória Baggio

    Por Victória Baggio

    28 janeiro 2022

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      A luz banha o espaço de maneira sutil, formando sombras geométricas que enchem o ambiente de vida, o ar entra como uma brisa leve, o interior e o exterior adquirem um diálogo próprio, entre o ver e o esconder. Cobogó, elemento arquitetônico brasileiro, próprio para o nosso clima tropical, uma tradição moderna que inova.

      Conheça tudo sobre o cobogó, sua origem, o porquê do nome, sua função, referências icônicas e como implementá-lo na arquitetura. Uma criação brasileira que é referência mundo afora por sua utilidade e seu charme próprio daqui. 

      O que é cobogó

      O cobogó é um elemento construtivo modular vazado, originalmente feito de cimento ou barro, mas que hoje em dia também pode ser encontrado de diferentes materiais, como cerâmica e vidro.

      Utilizado como divisor de ambientes internos e externos, pode ser colocado de piso a teto, substituindo uma parede ou uma abertura, ou como uma janela, no vão de uma parede.

      Casa Cobogó, arquitetura Marcio Kogan.
      Casa Cobogó, arquitetura Marcio Kogan. Fonte: Archdaily

      Ao funcionar como um tijolo ou bloco de concreto, porém ser vazado, o cobogó possibilita a entrada de luz e ventilação de um ambiente a outro ou do exterior ao interior. Por isso, é tão utilizado no Brasil e em lugares com clima tropical, ajudando a refrescá-los. 

      História e origem do nome cobogó

      O cobogó foi criado na década de 1920, em Recife, por um grupo de três engenheiros, Amadeu Oliveira Coimbra, português, Ernest August Boeckmann, alemão, e o brasileiro Antônio de Góis. O nome cobogó surge da combinação da primeira sílaba dos sobrenomes de seus criadores. 

      O elemento apresenta uma herança da cultura árabe, os muxarabis, utilizados como divisão de ambientes internos, que, à diferença do brasileiro, eram construídos em madeira. Os muxarabis foram trazidos ao Brasil pelos portugueses, e aqui ganhou novas formas, materiais e maneiras de uso; o cobogó inicialmente era feito de cimento ou barro e utilizado em fachadas exteriores. 

      Fachadas de cobogós em edifícios residenciais em Brasília.
      Fachadas de cobogós em edifícios residenciais em Brasília. Fonte: Jornal de Brasília

      Muito bem-aceito, após sua criação no Nordeste do Brasil, o cobogó começou a ser utilizado de Norte a Sul do País, principalmente em espaços residenciais, de casas e edifícios, mas não só. O arquiteto Lúcio Costa teve um papel essencial na popularização do cobogó, fazendo deste elemento parte da composição da arquitetura moderna brasileira. 

      Um dos exemplos mais emblemáticos do uso do cobogó nesta época está em Brasília, em projetos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, onde aparecem planos de cor feitos de cobogó, no térreo de edifícios públicos importantes, além de residenciais, brindando esses espaços com permeabilidade visual e privacidade. 

      Parque Guinle, projetado por Lúcio Costa.
      Parque Guinle, projetado por Lúcio Costa. Fonte: arquivo pessoal Victória Baggio

      Isso sem falar no famoso Parque Eduardo Guinle, no Rio de Janeiro, uma das obras mais importantes do modernismo brasileiro, em que o cobogó aparece como elemento que remete à arquitetura colonial, utilizado de maneira moderna, a partir da lógica de uma modulação ortogonal. 

      Funções do cobogó

      A sustentabilidade é um aspecto cada vez mais importante para a arquitetura. Para isso, é essencial buscar criar ambientes que possam ser confortáveis climaticamente sem precisar de mecanismos artificiais, utilizando formas alternativas, mais simples e acessíveis; o cobogó é um belíssimo exemplo para isso.

      Ao ser um bloco vazado, permite a passagem de luz e de ar de um ambiente ao outro, sendo possível construir uma parede apenas utilizando o cobogó, o que facilita a obra e a faz mais econômica que aberturas de vidro, por exemplo.

      Sendo o Brasil um lugar de clima majoritariamente quente, criar espaços cobertos frescos é muito desejado. Utilizar o cobogó como divisória de ambientes interiores e exteriores colabora bastante para isso, afinal a ventilação é constante, dia e noite, mantendo o local fresco e com renovação de ar, o que também é ótimo para a qualidade do ambiente. 

      Além disso, a luz que entra no espaço a partir do cobogó é indireta, possibilitando um ambiente claro e fresco ao mesmo tempo. Ideal para obter um espaço arejado e bem-iluminado.

      Como implementar o cobogó à arquitetura

      O cobogó pode ser implementado à arquitetura de diversas maneiras e em edifícios e espaços completamente diferentes, dependendo da função e dos aspectos desejados na hora de projetar.

      Casa Binh Thanh
      Casa Binh Thanh, projeto – Vo Trong Nghia Architects, Sanuki e Nishizawa Architects. Fonte: Archdaily

      Em edifícios públicos, zonas de acesso ou áreas comuns, por exemplo, o cobogó pode ser muito bem-vindo para criar espaços entre o exterior e o interior, entre o partilhado e o íntimo, pois possibilita certa privacidade mantendo uma relação sutil entre espaços. Como exemplos de uso, podem ser térreos de edifícios comerciais e residenciais, salões de festas e espaços de lounge em casas e condomínios. 

      Um clássico exemplo do uso do cobogó desde sua origem é para áreas de serviço, zonas para estender roupa, afinal é ideal para isso, pois permite que o espaço esteja se ventilando constantemente, que a luz natural entre, ao mesmo tempo que o proteja e não o deixe à vista. 

      Centro Cultural La Tallera, México, arquitetura Frida Escobedo.
      Centro Cultural La Tallera, México, arquitetura Frida Escobedo. Fonte: Archdaily

      O cobogó apresenta a vantagem de manter o espaço ventilado, é comum vermos o elemento utilizado em espaços onde a higiene e a limpeza são essenciais, tanto em residências, cozinhas, áreas de serviço e banheiros, como em espaços coletivos, desde clínicas a escolas e zonas de fluxo elevado de pessoas, por exemplo. 

      Quando o cobogó é implementado ao projeto de arquitetura, este pode ter um papel fundamental tanto para o conceito lógico, a função e a estética da obra, como para ser parte integrante da arquitetura, afinal é um bloco que pode ser idealizado do zero e ter as dimensões, as formas e as cores que se desejar. 

      Além dos tradicionais cobogós de cerâmica ortogonais, atualmente se pode encontrar no mercado uma extensa variedade do elemento, de cerâmica, cimento, vidro ou madeira, com formas geométricas e também orgânicas, das mais variadas cores, compondo um ou mais planos espaciais do lugar onde está.   

      Inspirações de espaços com cobogó

      O cobogó é um elemento que pode ser utilizado em diversos espaços para cumprir com funções variadas, além de apresentarem estilos completamente diferentes. Para te inspirar, selecionamos ótimos exemplos nos quais aparece este elemento aliado à arquitetura e à decoração de espaços interiores. 

      Hall com cobogó

      Um painel de cobogó é uma ótima opção para a zona de acesso e hall, de uma casa, ambiente corporativo ou comercial, pois serve para separar ambientes de entrada do de estar, por exemplo, de uma maneira leve, sutil e encantadora.

      Ao utilizar este recurso, os ambientes continuam tendo certa relação, visualmente e de entrada de luz, enquanto cria privacidade ao espaço.

      Cobogó no hall de entrada.
      Cobogó no hall de entrada. Fonte: Pinterest

      No projeto da imagem acima, por exemplo, o cobogó atua como elemento que delimita um espaço de hall de entrada, ocultando a visão direta para a zona de estar da casa, enquanto compõe um elemento decorativo para o ambiente. 

      Espaços exteriores com cobogó

      Em espaços exteriores, como pátios, jardins de inverno, varandas, salões de festas etc., onde o limite entre dentro e fora, muitas vezes, é difuso, o cobogó pode ser o recurso perfeito para melhorar a qualidade espacial, limitar as áreas, controlar a luz e brindar o ambiente com personalidade.

      Casa Jardins, CR2 Arquitetura.
      Casa Jardins, CR2 Arquitetura. Fonte: Archdaily

      Em jardins de inverno, por exemplo, revestir todas ou uma das paredes com cobogó ajuda a manter tanto o pátio quanto o interior mais frescos e arejados, além de possibilitar a relação constante e sutil entre o ambiente interno e o jardim.

      Casa PA, Studio Guilherme Torres.
      Casa PA, Studio Guilherme Torres. Fonte: Archdaily

      Já em pátios de casas residenciais, o cobogó também pode servir como fechamento vertical entre o pátio e a via pública, por exemplo, garantindo a privacidade da área interna. Na imagem anterior, além disso, o cobogó está inserido como extensão do interior ao exterior, de maneira a dar continuidade entre o ambiente interior para o pátio.

      Espaços de circulação

      Casa B+B, Studio MK27.
      Casa B+B, Studio MK27. Fonte: Fernando Guerra

      Corredores internos e externos, rampas e escadas são alguns dos exemplos de espaços de circulação onde utilizar a circulação pode ser um ótimo recurso para melhorar a qualidade espacial de um determinado local. A luz que entra filtrada, criando sombras geométricas, dá vida ao espaço, além de mantê-lo ventilado. 

      O cobogó aliado às áreas molhadas

      Cozinha, área de serviço e banheiro compõem as áreas molhadas de uma casa ou um apartamento, ambientes onde luz natural e boa ventilação são aspectos essenciais e, portanto, muito desejados. 

      Apartamento 112 Sul, CoDA arquitetos.
      Apartamento 112 Sul, CoDA arquitetos. Fonte: Archdaily

      Por isso, o cobogó pode ser o fechamento ideal nesses ambientes, permitindo ventilação e iluminação natural durante todo o dia, enquanto cria uma relação própria entre o interior e o exterior.

      No projeto mostrado, o apartamento na cidade de Brasília é banhado de luz e ar fresco a partir do cobogó em toda a parede, que, neste caso, é próprio do projeto de arquitetura, o que o faz ainda mais integrado com a espacialidade da casa e do edifício. 

      Entre o integrar e o esconder

      O cobogó possibilita uma relação própria entre os lugares que está, que pode servir tanto para integrar quanto para separar, ambos de maneira sutil e alegre, afinal os ambientes ainda continuam vinculados visualmente, mas através de um filtro, que varia de acordo com as dimensões do cobogó. Ora utilizado para criar certa privacidade entre espaços, ora colocado de maneira a integrar uma grande área, delimitando-a. 

      Este elemento brasileiro se popularizou pelo mundo não à toa, pois em cada lugar pode adquirir novos aspectos, materiais e formas. Uma tradição que é retomada e inovada.

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