Por que as bicicletas compartilhadas funcionaram na Holanda, mas não no Brasil nem na China?

Quando o assunto é mobilidade urbana não é novidade que o trânsito nas grandes cidades é um sério problema, seja pelo estresse causado pelos congestionamentos, pela poluição sonora dos motores e das buzinas ou pela exposição à poluição atmosférica. São tantos veículos disputando o mesmo espaço que fica difícil lidar com o caos.

A fim de melhorar a qualidade de vida da população e contribuir positivamente com o meio ambiente, amenizando o fluxo de veículos nas ruas, novas possibilidades surgiram. As bicicletas compartilhadas, por exemplo, surgiram nesse contexto e logo se mostraram uma interessante alternativa para diversos países no mundo. As dockless bikes, como as da Yellow, por exemplo, ficaram famosas por serem uma opção prática, já que seus sistemas dispensam uma estrutura para fixá-las e podem ser encontradas em diversas partes das cidades.

Na Holanda, funcionou bem com incentivo do Governo

A Holanda, país mais plano da Europa, possui o maior número de bicicletas por indivíduo: são cerca de 17 milhões de habitantes e surpreendentes 23 milhões de bicicletas. Em 2014, foi registrado um aumento de 6,5% no número de ciclistas; nos últimos dez anos, o aumento do uso foi de 60%. Eventos que certamente contribuíram para que o uso da bicicleta deixasse de ser um simples pedalar para tornar-se um estilo de vida.

No país, desde que não haja sinalização, é possível estacionar a bicicleta em qualquer rua. Porém, como o número de bicicletas é grande, é trabalhoso achar um espaço vago e, por causa disso, foram construídos estacionamentos subterrâneos.

Utrecht, sua cidade mais populosa, possui o maior estacionamento de bicicletas do mundo, com 12.500 vagas. Construído sob a praça da estação central, possui três andares e dispõe de 700 bicicletas para aluguel. É possível utilizar o cartão geral de transporte para pagá-lo e está sempre aberto. 

Pessoas pedalam dentro do estacionamento de bicicletas
Fonte: ArchDaily

Este projeto, dentre outros, é um investimento do Governo, das Prefeituras e do Ministério do Transporte, que incentivam o uso da bicicleta pela população. A ideia também é promover o uso das bikes em troca de diminuição nos impostos: para cada quilômetro percorrido nos deslocamentos diários, 19 centavos de euros são reduzidos dos impostos.

De acordo com o índice Bicycle-Friendly Cities, criado pela consultoria dinamarquesa de design urbano Copenhagenize, a sua capital, Amsterdã, tem planos para melhorar ainda mais a mobilidade urbana local. Mostrando preocupação com o meio ambiente e a saúde da população, e em busca de uma atitude mais sustentável, a ideia é que a cidade remova mais de 11 mil vagas de estacionamento do centro da cidade até 2025. Essas vagas serão substituídas por estacionamentos de bicicletas, árvores e ambientes mais propícios para caminhadas.

No Brasil e na China não foi um sucesso

No Brasil, a novidade das bicicletas compartilhadas surgiu como uma ideia inovadora frente aos problemas envolvendo o trânsito, e logo a malha cicloviária aumentou. Segundo pesquisa feita em 2018 pela GloboNews, em parceria com prefeituras de 26 capitais e com o governo do Distrito Federal, em quatro anos, houve um crescimento de 133% no número de vias (3.291 km) das capitais destinadas aos ciclistas. 

Porém, ainda são poucas as ciclovias e, entre as existentes, muitas são inadequadas, seja por não terem ligação com outras ciclovias, por interceptarem pontos de ônibus, ou simplesmente não receberem a manutenção necessária. Ou seja, a infraestrutura é insuficiente.

Pessoas pedalam com suas bicicletas em uma ciclovia em São Paulo
Via: ArchDaily

Além das situações que inviabilizam o pedalar, infelizmente são vários os relatos de acidentes envolvendo ciclistas no Brasil. De acordo com o Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo (Infosiga SP), em 2019 foram registrados 635 acidentes na cidade de São Paulo, uma média de quase dois acidentes por dia.

Na China, onde se concentra a maior população do mundo, estima-se que 16 milhões de dockless bikes circulavam durante o auge da novidade no país, em 2016. Rapidamente a competição de mercado aumentou, e milhares de bicicletas foram fabricadas num curto período de tempo.

A empresa chinesa Bluegogo chegou a produzir 10 mil bicicletas por dia para desbancar as rivais Mobike e Ofo, mas faliu em novembro de 2017, e a saturação da produção teve um desfecho complicado: quase 70 mil bicicletas paradas em estacionamentos. 

Milhares de bicicletas em desuso, empilhadas em um estacionamento na China
Via: Hypeness

O sistema chinês é diferente do instaurado no Brasil (pontos fixos) e em outras partes da Europa (locais indicados por sinalização). As bicicletas ficam espalhadas pelas cidades em pontos aleatórios e somente podem ser encontradas por meio do GPS, quando são desbloqueadas por meio do código QR e, por fim, seu uso é liberado. Depois, basta deixá-la em qualquer ponto da cidade.

Sem uma legislação local preparada, o resultado não poderia ser diferente: pilhas de bicicletas abandonadas, empilhadas umas sobre as outras, sem uso e sem dono.

No Brasil e na China, o formato que a princípio se mostrou uma alternativa interessante não se sustentou como esperado.

Conclusão

Na Holanda, com muito planejamento e preparo, inúmeras estradas possuem ciclovias com semáforos e controle de tráfego.

Nas áreas mais congestionadas, os ciclistas podem circular com mais segurança separados do tráfego por  pontes e túneis. Há sinalização e indicações adequadas, corredores compartilhados, postos de aluguel, bem como rotas alternativas. Os automóveis não são mais importantes do que as bicicletas, então a sinalização é igualitária: as ciclovias têm os mesmos sinais de trânsito que as pistas de automóveis. Além disso, existem leis que asseguram a redução da velocidade dos carros, evitando acidentes com ciclistas.

Idosos passeiam em suas bicicletas na Holanda
Via: Mobilize Brasil

Projetos que surgem como ideias promissoras necessitam de planejamento, manutenção contínua e soluções inteligentes frente às adversidades, principalmente pensando em cidades grandes com um número considerável de indivíduos. Por isso, propostas públicas e privadas precisam contemplar seus habitantes de maneira palpável para que, enfim, a mobilidade urbana esteja alinhada a propostas mais sustentáveis e também ao bem-estar da população.

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