Parque do Minhocão aponta novo rumo para o centro da cidade de São Paulo

Passado, presente e futuro do Elevado João Goulart revelam mudança de direção e perspectivas otimistas para o centro de São Paulo.

Perspectiva do Parque do Minhocão com móveis modulares e plantio de vegetação.
Projeto do Parque do Minhocão.(Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).

Quando o uso do automóvel parecia ser a melhor solução para os problemas da cidade, o Elevado João Goulart veio trazer, o que acreditavam alguns, progresso para a cidade de São Paulo.

Localizado no centro da cidade, o empreendimento conecta a Avenida Radial Leste à Avenida Francisco Matarazzo (zona oeste), passando pelos bairros República, Consolação, Santa Cecília e Barra Funda.

Antes mesmo da sua inauguração nos anos setenta, o Minhocão, como é popularmente conhecido, já causava controvérsias e dividia opiniões. Desde então, sua existência tem sido o foco de discussões, estudos e até propostas para solucionar seus impactos negativos na cidade, levando o poder público, por diversas vezes, a rever suas regras de uso.

Depois de algumas medidas públicas que indicavam essa direção, neste ano o prefeito Bruno Covas anunciou a obra do primeiro trecho do Parque do Minhocão.

A construção de um parque suspenso onde, hoje, circulam mais de setenta mil veículos por dia, revela uma mudança de consciência e de comportamento rumo a uma cidade mais humana e sustentável. Veja os detalhes a seguir:

O triste futuro da avenida

"Elevado, o triste futuro da avenida". Manchete do jornal O Estado de São Paulo em dezembro de 1970
Manchete do jornal O Estado de São Paulo

A manchete do jornal O Estado de São Paulo de 01 de Dezembro de 1970 revela que mesmo antes da sua inauguração, o Elevado João Goulart, chamado Elevado Costa e Silva até 2016, nunca foi uma unanimidade. Mesmo em meio à polêmica e muita controvérsia, em uma época em que estimular o uso do automóvel era um sinal de progresso, Paulo Maluf encontrou na obra do “Minhocão” uma forma de marcar sua primeira passagem pela prefeitura.

Passado o furor da inauguração em janeiro de 1971, logo o poder público precisou tomar medidas para amenizar o impacto negativo que o empreendimento causou na cidade e na vida dos habitantes do entorno.

O intenso fluxo de carros a poucos metros de distância dos edifícios residenciais tirou a privacidade e a qualidade de vida dos moradores, gerando também muita poluição sonora e do ar, o que causou uma grande desvalorização da região. O elevado também se tornou abrigo para pessoas em situação de rua, prostituição e usuários de drogas, contribuindo para a rápida degradação da área.

Moradores dormindo embaixo do Minhocão
Moradores dormindo embaixo do Minhocão (LULUDI/Divulgação).

Em 1976, Olavo Setubal proibiu a circulação de carros no Elevado entre a meia noite e 5 horas. Anos depois, Luíza Erundina ampliou esse período para 21:30 às 6:30 horas. Em sua segunda gestão, Paulo Maluf proibiu o uso de automóveis no Elevado aos domingos e feriados. Atualmente, ele também é fechado aos sábados para uso exclusivo de pedestres.

Uma mudança de paradigma

Na contramão da sua idéia inicial mas em direção à tendência global de devolver a cidade ao pedestre, iniciativas têm sido tomadas para promover o Elevado enquanto espaço de lazer e recreação. O espaço já foi ocupado por bloquinhos de carnaval e atrações da Virada cultural, antes de ser impedido por a falta de estrutura necessária para esse tipo de evento. Hoje, ele é adotado pelo paulistano que busca um espaço livre de carros para praticar esportes ou apenas caminhar aos finais de semana e feriados.

Pedestres e ciclistas utilizam o Minhocão aos finais de semana e feriados
Pedestres no Minhocão (Foto: GUO PINHONG/Futura Press/Folhapress)

O Parque do Minhocão tem em sua história muito em comum com o High Line, em Nova Iorque. Ambos, em algum momento, se tornaram ruins para cidade e ambos dividiram a população entre os que defendiam a demolição e os que defendiam a construção de um parque. Atualmente, o parque suspenso de 2,4 km de extensão é uma das atrações turísticas de Nova Iorque e impulsionou o desenvolvimento e valorização do entorno que conta com bons restaurantes, cafés e galerias de arte.

Parque Hight Line, em Nova Iorque
High Line, Nova Iorque. Foto de David Berkowitz (www.flickr.com/photos/davidberkowitz/)

O Promenade Plantée, em Paris, é também uma referência de sucesso. Inaugurado em 1994, o primeiro parque suspenso do mundo foi construído sobre uma linha férrea desativada desde 1969. Assim como o High Line, seu trajeto arborizado conecta restaurantes e lojas de decoração e arte. Uma atração agradável aos pedestres e turistas.

Parque suspenso em Paris, Promenade Plantee
Promenade Plantée, em Paris

Parque do Minhocão: Planejamento e obra

Em 2014 foi dado o primeiro passo efetivo para a transformação do Minhocão. O Novo Plano Diretor de São Paulo sinalizou, ainda que sem prazo, a demolição ou transformação do elevado em um parque suspenso.

Neste ano o prefeito Bruno Covas anunciou, finalmente, a construção do primeiro trecho do Parque do Minhocão. Baseado no estudo do urbanista Jaime Lerner, o projeto estimado em R$ 38 milhões ocupará 900 dos 3.400 metros do Minhocão entre a Praça Roosevelt e o Largo do Arouche.

Esse trecho será realizado em três etapas:

Na primeira etapa estão previstas obras de segurança e acessibilidade, bem como a instalação de estruturas de proteção laterais para os pedestres e pontos de acesso entre escadas e elevadores. A previsão de entrega dessa etapa é dezembro de 2019.

A segunda etapa iniciará no final desse ano e contempla a instalação efetiva do parque, com mais de 17 mil metros quadrados de jardins, além de floreiras e deques. A entrega dessa etapa e inauguração do espaço estão previstas para dezembro de 2020.

A terceira etapa acontecerá em paralelo à segunda. Serão discussões com participação popular para definir o regramento específico do entorno.

Localização e tráfego

O primeiro trecho do Parque do Minhocão será entre a saída Leste-Oeste e o entroncamento do Elevado com a Avenida São João. O trânsito nesse trecho será impedido assim que as obras da segunda etapa iniciarem.

“Quem seguir no sentido dos bairros de Perdizes e Barra Funda poderá pegar o Elevado por um acesso próximo à Rua Helvétia, na região dos Campos Elíseos. Até esse ponto, o motorista deverá seguir pela Avenida Amaral Gurgel. No outro sentido, o caminho em direção à Zona Leste será interrompido na passagem para a Rua Sebastião Pereira, na Vila Buarque.” As informações são do G1.

Ainda segundo o portal, a CET está realizando estudos para a definição das intervenções viárias necessárias do entorno.

Elevado Presidente João Goulart. Imagem: CET
Elevado Presidente João Goulart (Imagem: CET)

O projeto do Parque do Minhocão

O projeto reflete o estilo conceitual de seu idealizador, o premiado Urbanista Jaime Lerner. Com o uso de mobiliário modular e efêmero, ele tem como objetivo estimular a ocupação de forma que o parque ganhe vida própria, com teatros, bares, expressões de arte e shows, por exemplo. Além de prever a conexão do elevado com outros espaços públicos de lazer, como a Praça Roosevelt, Parque Augusta, Largo do Arouche e Praça Marechal Deodoro.

Projeto do Parque do Minhocão: Plataformas ligarão o parque aos prédios do entorno
O projeto do escritório Lerner Arquitetos Associados prevê a instalação de plataformas para conectar o parque aos edifícios do entorno (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: serão construídos 9 acessos para pedestres
São previstos 9 acessos para pedestres entre escadas e elevadores (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: plantio de vegetação
17.500 metros quadrados de vegetação serão plantados no primeiro trecho do parque (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: estrutura temporária servirá para shows e outros eventos culturais
O projeto tem como objetivo promover eventos de arte e cultura com o uso de palcos e estruturas temporárias (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: móveis modulares
É proposto o uso de mobiliário modular como estruturas de bambu, floreiras e deques (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: bares, restaurantes e comércios
Bares, restaurantes e comércio a céu aberto seriam mais um atrativo para os turistas (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: vida noturna
Com a ocupação do público e estrutura necessária, o parque se tornaria importante ponto de cultura e lazer da cidade (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).
Projeto do Parque do Minhocão: ocupação do espaço inferior ao elevado para uso comercial e institucional
O projeto de Lerner Arquitetos Associados também prevê a ocupação do espaço inferior ao elevado para uso comercial e institucional (Projeções Lerner Arquitetos Associados/Divulgação).

Apesar, porém, de todos os benefícios apresentados, como tudo que envolve o Minhocão, a requalificação da área ainda é motivo de polêmica. Muitos defendem que a consequente valorização da região afastará a população mais pobre dificultando ainda mais o acesso dos
menos favorecidos a equipamentos públicos de qualidade.

Fato é que os proprietários de imóveis próximos ao elevado se beneficiarão de uma considerável valorização do seu patrimônio, além de poder desfrutar do que tem tudo para ser um importante espaço de lazer e cultura da cidade.

É o caso, por exemplo, do Downtown República. Empreendimento de studios de 29 a 41 metros quadrados localizado na República.

Empreendimento Donwtown República será beneficiado pela valorização da área
Downtown República

O Jazz Perdizes, apartamentos de 56 a 314 metros quadrados, com 1, 2 ou 3 dormitórios também está na área que se beneficiará do impacto positivo do Parque do Minhocão.

Empreendimento Jazz Perdizes será beneficiado pela valorização da área
Jazz Perdizes

No final das contas, todos ganham com o parque. Os paulistanos, os turistas e, principalmente, a cidade.

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