Lina Bo Bardi – Que arquiteta é essa?

Esta matéria inaugura a nova série “Que arquiteto é esse?” do Live.
Começamos com a arquiteta Lina Bo Bardi em reconhecimento ao seu incrível trabalho e em homenagem a todas as mulheres neste 8 de março – Dia Internacional das Mulheres.

A arquiteta modernista ítalo-brasileira Achillina Bo Bardi, mais conhecida como Lina Bo Bardi, nasceu dia 5 de dezembro de 1914, em Prati di Castello, na Itália. 

Arquiteta, designer, ilustradora, cenógrafa e editora, a multiprofissional atuou numa época em que as mulheres eram pouco ouvidas. Exerceu sua profissão num momento em que ser mulher num ambiente de trabalho como um canteiro de obras, por exemplo, era algo afrontoso e adverso. 

Com foco na simplicidade, no estilo moderno e na dedicação voltada à interação das pessoas com as suas obras, Lina também foi uma grande pensadora. Italiana naturalizada no Brasil, ela revolucionou a arquitetura brasileira ao unir o moderno ao popular, incorporando cultura, política e antropologia em cada um de seus projetos.

História de vida

Ainda durante o período em que vivia na Itália, Lina teve aulas de desenho no Liceu Artístico de Roma e formou-se em Arquitetura pela Universidade de Roma, em 1940. 

Até que, contrária à ascensão do fascismo e diante de toda instabilidade política da cidade, se mudou para Milão, onde pôde trabalhar com o arquiteto Gio Ponti (1891-1979), diretor das Trienais de Milão (renomadas exposições de arte italiana) e das revistas Domus, Lo Stile e Bellezza.

Após trabalhar um tempo como editora, ela passou a dirigir a revista Domus, no mesmo período em que seus projetos começaram a ganhar destaque na área. Além das artes, Lina também passou a ter uma atuação política mais ativa.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ela se posicionou na resistência contra a ocupação alemã, entrou para o Partido Comunista Italiano (PCI) e fundou a revista semanal de arquitetura A: Cultura della Vita, em parceria com o arquiteto e urbanista italiano Bruno Zevi (1918-2000).

Vivência no Brasil

Após o complicado período da guerra, a arquiteta casou-se com o jornalista e historiador Pietro Maria Bardi, em 1946. No ano seguinte, durante uma visita do casal ao Rio de Janeiro, ela conheceu as vanguardas do Brasil e descobriu uma chance para as artes fora da Europa arrasada pela guerra.

Durante essa visita, apaixonou-se pela natureza, pela arquitetura da cidade e pelo dinamismo do local. Observando os espaços com uma perspectiva mais voltada às humanidades, inseriu um enfoque canalizado no encontro entre a estética das vanguardas e os costumes populares.

Após o convite do jornalista e político Assis Chateaubriand para Pietro fundar e dirigir o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP, Lina naturalizou-se brasileira e passou a morar no Rio de Janeiro.

A arquiteta também sempre se atentou a valorizar as matérias-primas nativas. Em 1948, por exemplo, fundou o Studio d’Arte Palma, um empreendimento do setor de produção mobiliária dedicado à produção de móveis de madeira. 

O Studio d’Arte Palma teve um forte impacto sobre a produção em série de móveis. Respeitava as características locais, e os materiais nacionais utilizados eram todos checados, resultando numa fabricação atenta e específica para o clima brasileiro.

Obras de Lina Bo Bardi

Ao passo que se envolveu em projetos de edifícios residenciais e públicos, Lina também fundou a revista Habitat e, em 1951, completou um de seus mais renomados projetos: a Casa de Vidro, sua residência. Hoje, esse projeto é patrimônio histórico e espaço cultural.

Lina destacou-se na arquitetura brasileira por compreender a cultura popular, incorporando conceitos como antropologia, ocupação de espaços, presença humana e estética. Seu legado e impacto são diretamente refletidos na arquitetura até os dias de hoje.

Museu de Arte de São Paulo – MASP

Em 1957, ela foi responsável pelo projeto que possuía quatro grandes colunas vermelhas integradas a um vão de 70 metros sobre a praça de convívio do espaço: nada mais nada menos que a nova sede do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Sua inauguração deu-se em 1968, em plena ditadura militar brasileira, momento em que a própria arquiteta teve problemas para expressar sua liberdade artística frente às repressões do período no país.

Anteriormente, o MASP ficava no centro de São Paulo, na rua Sete de Abril. Hoje está situado na Avenida Paulista. É um dos principais pontos culturais da cidade e um dos maiores marcos da arquitetura brasileira.

Casa de Vidro

Casa de Vidro no Morumbi
Fonte: G1

Marca do modernismo brasileiro, a Casa de Vidro foi a morada de Lina e Pietro por 40 anos. Com um jardim de 7.000 m², a casa é suspensa por delicados pilares e envolta por uma vasta vegetação.

Localizada em um bosque no bairro do Morumbi, em São Paulo, a casa tornou-se um dos pontos mais importantes da cultura nacional. Atualmente abriga o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi,  um centro de pesquisas para arquitetos que conta com a mobília original, exposições, acervo pessoal e palestras.

Sesc Pompeia

Com um forte impacto cultural, foi projetado com base na premissa de proporcionar a integração e o convívio entre os visitantes. O Sesc Pompeia é um amplo centro de cultura e lazer, que inclui uma programação com mais de 100 atrações musicais ou teatrais por mês.

Situado na zona oeste de São Paulo, no bairro da Pompeia, o projeto de Lina mantém a estrutura original da antiga fábrica de tambores que ocupava o espaço desde os anos 1930. Possui piscina, quadras esportivas, espaços para exposições e restaurante.

Museu de Arte Moderna da Bahia MAM-BA

Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM-BA
Fonte: Flickr

Ao viajar para Salvador, em 1958, Lina foi responsável por algumas conferências na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia, quando foi convidada a dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA). 

A finalidade de seu projeto era criar um museu que incentivasse o ensino e a produção cultural na região. Além disso, trata-se de um dos principais destaques da arte contemporânea da Bahia.

A arquiteta também foi responsável pelo restauro do Solar do Unhão, famoso conjunto arquitetônico que integra também a Capela de Nossa Senhora da Conceição, alambiques, aquedutos, cais privativo, dentre outras áreas. Sua construção, porém, foi interrompida por causa das intervenções provenientes da ditadura militar no país.

Tombado em meados de 1940 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), o projeto foi restaurado por Lina. Ela fez questão de levar artesãos populares para atuar dentro do museu, trazendo importantes questionamentos sociopolíticos para a arquitetura local.

Lina Bo Bardi continua…

Lina Bo Bardi faleceu em 20 de março de 1992, mas certamente deixou um belíssimo legado, que vai além da arquitetura, trabalhando em produção editorial, design de interiores e mobiliário, curadoria, crítica de arte, além de cenografia de peças de teatro e filmes.

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